27
Jan-2017

Amesterdão, aldeia global

Europa, Holanda   /   Etiquetas:

Muitas coisas aconteceram desde que aquela pequena comunidade de pescadores se estabeleceu nas margens do rio IJ no final do século XIII. Numa zona rodeada de água, pantanosa e com pouca terra para ser cultivada, a pesca e posteriormente o comércio marcariam a história desta cidade e de todo um país.

Singelstraat, Amesterdão

Rua Singel, Amesterdão

Um século depois da sua fundação, Amesterdão florescia como um importante núcleo comercial e em finais de 1400 as rotas comerciais do Báltico já eram praticamente da sua exclusiva propriedade. Naquela época a cidade desfrutava de uma organização político-administrativa muito diferente da que predominava nas metrópoles da vizinhança. Nem a igreja nem o feudo decretavam sanções, não havia distinção entre os nobres e a plebe, e quase não eram aplicados impostos. O individualismo e o capitalismo já faziam parte da sua forma de ser. E nascia já nessa época a Amesterdão que todos conhecemos hoje: livre, aberta e progressista.

canal de Amsterdão

Paisagem típica de Amsterdão, com os seus canais

O século de ouro de AmEsterdão

A época de ouro de Amesterdão coincidiu com o século XVII. Nesse momento esta era uma das cidades mais ricas do mundo e desde aqui se controlavam as rotas comerciais e os negócios que a Holanda tinha pelo mundo inteiro, concretamente na América do Norte, em África, no Brasil e, obviamente, com a Companhia Holandesa das Índias Orientais. Mas a coisa não ficava por aqui. Sendo um lugar tão vibrante, o seu magnetismo atraiu a pessoas de todos os continentes e de diferentes estilos. Por aqui passaram importantes pensadores e intelectuais como Spinoza, Descartes ou Locke. Acolheu a correntes religiosas perseguidas como os “huguenotes” (nome dado aos protestantes franceses durante as guerras religiosas na França), puritanos e judeus sefarditas que fugiam de Espanha e Portugal. No seu pequeno território havia cerca de 250 editoras e a imprensa tinha um lugar de destaque na sociedade.

Foi o século de Rembrandt, Vermeer, Hals e muito outros, que dão ao barroco europeu alguns dos seus traços distintivos, com um acentuado contraste entre claros e escuros, cenários boémios e e paisagens que definiriam a pintura holandesa e que viriam a fazer parte da história da arte. O seu declínio começou com as guerras anglo-holandesas, e posteriormente com as invasões napoleónicas, que deixaram marcas profundas na sua sociedade.

Amstedam centraal

Estação Central de Amsterdão

Amesterdão só voltaria a levantar a cabeça em 1815, quando começa um importante período de recuperação que a finais do século XIX se classificou como “o segundo século de ouro”. Foram construídos novos museus, a estação de comboios, e a cidade está finalmente ligada ao resto da Europa por terra e por mar. Tinha chegado a revolução industrial. E a cidade continuou a crescer até 1914, com a construção de novos bairros residenciais, seguindo o exemplo da Paris de Samuel Sarphati.

A Holanda do século XX

Durante a primeira guerra mundial a Holanda declarou a sua neutralidade e converteu-se num refúgio para milhares de pessoas. Mas sofreu varias consequências devido à sua localização geográfica. Três décadas depois, em 1940, a Alemanha nazi invadiu Amesterdão. Hitler instalou na cidade um governo nazi que se encarregou da perseguição aos judeus e a quem os ajudava. Mais de 100.000 foram levados a campos de concentração. Entre eles estava Anne Frank, que foi descoberta depois de permanecer escondida durante quase dois anos e levada a um destes campos, onde viria a falecer. Apenas um de cada dezasseis judeus que havia em Amesterdão sobreviveu à guerra.

Praça Dam, Amsterdão

Palácio Real e a Praça Dam

Com a paz restabelecida na Europa, Amesterdão passou por outra transformação. Longe ficava aquele próspero império de comerciantes. E a partir dos anos 50, imigrantes de todo o mundo, mas especialmente das ex-colónias holandesas como a Indonésia e Suriname, encontravam um lar nesta cidade, juntamente com um grande número de trabalhadores provenientes da Turquia, Marrocos, Itália e Espanha, que na década de 60 acabariam por assentar-se nesta zona.

A partir desse momento Amesterdão converteu-se numa das cidades mais cosmopolitas do mundo. E tanto é assim, que hoje em dia um terço da sua povoação – e a metade das suas crianças – são de origem não ocidental. Por isso lhe chamam frequentemente “Amesterdão, a aldeia global”.

Spuistraat, Amsterdam

Praça Spui, Amsterdão

E tudo isto com as ideias de liberdade, abertura e progresso sempre presentes desde a sua fundação. Amesterdão é uma cidade de vanguarda. Basta olhar para o seu bairro vermelho, para a sua tolerância face ao consumo da cannabis, ou o facto de ter sido uma das primeiras cidades a reconhecer os direitos do colectivo LGTBI. E são apenas alguns exemplos.

Uma cidade e uma sociedade que rompeu com muitos tabus ao longo das últimas décadas. Tabus que infelizmente ainda se mantêm em muitas sociedades ocidentais. Esperamos que o auge recente da direita ultra-conservadora na Europa e na Holanda não acabem com a magia de Amesterdão.

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