02
Ago-2017

À descoberta da cidade de Skopje em 24 horas

Macedónia   /   Etiquetas:

Cidade de nascimento da Madre Teresa de Calcutá e capital do país liderado por Alexandre Magno, muitos séculos antes de converter-se na República da Macedónia que é hoje, Skopje é uma capital surpreendente. Começando pela sua história de lutas, tragédias e ocupações várias, que deixaram marcas na sua organização e aspeto atual. Mas também pela força e energia que transmite a quem a visita.

MuseoArqueologico

Localizada junto às margens do rio Vardar, Skopje está em pleno centro da Península Balcânica, a meio caminho entre Belgrado e Atenas, como parte da rota que une o norte e o sul dos Balcãs. Atualmente com cerca de 670.000 habitantes, é um reflexo do passado convulso do país. E basta ver quantas vezes mudou de nome. Passou de ser Escupi, durante o período romano, a chamar-se Üsküb ou Üsküp, com a chegada do domínio Turco-Otomano.

Em princípios do século XX o império otomano entraria em declive e a cidade passou a ser controlada pelos sérvios, tornando-se parte do Reino da Jugoslávia em 1918. E aqui começava um novo conflito de interesses entre países vizinhos, que culminou com a transferência de Skoplie para as mãos dos búlgaros, durante a Segunda Guerra Mundial. Ainda estaria novamente debaixo do controlo jugoslavo, até que finalmente a Macedónia conquistou a sua independência no dia 8 de setembro de 1991.

Parecem-lhes demasiados acontecimentos para a história de uma pequena cidade? Pois saibam que isto não é tudo. Depois de toda a destruição causada por guerras constantes, em 1963 era a natureza que mostrava as suas armas em Skopje, na forma de um terramoto de 6,1 na escala de Richter. O resultado: mais de mil mortos, 120 mil desalojados e 80% da cidade destruída. Felizmente, a ajuda internacional chegou rapidamente e Skopje foi reconstruida em poucos anos.

Mas só voltaria a levantar a cabeça completamente já no século XXI, com o grande projeto Skopje 2014”, que deu à cidade o aspeto que tem hoje e que lhes descrevemos neste artigo. No âmbito desta iniciativa foram construídos diversos monumentos, estátuas e edifícios impressionantes de corte neoclássico, não sempre isentos de polémica. Construções que dão a Skopje um ar quase imperial, com mostras de querer esquecer as humilhações do passado e uma vontade enorme de avançar em direção a um futuro próspero e pacífico.

Mas demos início à nossa visita de 24 horas, para ficar a conhecer um pouco melhor a Skopje dos nossos dias.

rayita

Começamos o dia na praça principal de Skopje, a Praça da Macedónia (Macedonia Square). Aqui encontramos a imponente estátua com mais de 12 metros de altura de um guerreiro num cavalo, que representa a Alexandre, O Grande, montado no seu cavalo Bucéfalo.

Praça da Macedónia

Aí ao lado encontramos também a Fonte das Mães da Macedónia, que nos pareceu curiosa principalmente pelos monumentos que a rodeiam, dedicados aos grandes heróis (masculinos) da pátria, como Alexandre O Grande ou ao seu pai Filipe II. E não são as mulheres e as mães personagens imprescindíveis em qualquer momento da História? Aqui esse mérito é-lhes reconhecido.

Fonte das Mães da Macedónia

A partir daqui, rumamos em direção à famosa Ponte de Pedra, considerada um símbolo de Skopje e um dos principais elementos do escudo de armas da cidade. Atravessando o rio Vardar, une a zona oriental da cidade, de maioria eslava, com a zona norte, onde vive grande parte da povoação muçulmana e onde se encontra o Grand Bazaar.

Ponte de Pedra, Skopje

Há que dizer também que esta é a ponte mais antiga da cidade. A sua estrutura original foi construída no século VI, mas os doze arcos que vemos hoje resultam da reconstrução levada a cabo quase 100 anos depois (no século XV), pelo sultão Murat II.

Ponte de Pedra, skopje

Já chegados à outra margem, não podemos deixar de visitar o Velho Bazar de Skopje (mais conhecido como Old Bazaar), que é nada mais nada menos que o maior bazar dos Balcãs, logo depois do de Istambul.

Um enorme bairro recheado de lojas, restaurantes e mesquitas, onde se respiram ares do passado e da presença otomana na cidade. E não é por acaso que este é também conhecido como o bairro turco e continua a ser o lugar eleito pela maioria da povoação muçulmana para viver.

Velho Bazar de Skopje

Esta é sem dúvida a melhor zona de Skopje para fazer compras, por preço e pela variedade que oferece. é um prazer Perder-se entre as suas ruas estreitas, entrar nos pequenos ateliers de artesanato e lojas com todo o tipo de souvenirs, visitar as suas mesquitas e provar um prato tradicional em qualquer restaurante local (encontram-se menus por menos de 5€).

E depois de atravessar o Gran Bazaar, assim que saimos pela porta norte, encontramos o mercado da cidade, com todo o tipo de produtos, desde alimentos a roupas e velharias. Se te deixas levar, como nós, podes passar aqui horas, entre um posto e outro.

mercado da cidade de Skopje

Deixamos para trás o Velho Bazar e começamos a subir em direção à Fortaleza. Mas pelo caminho ainda visitaremos a Mesquita Mustafa Pasha, um dos mais famosos edifícios otomanos de toda a Macedónia.

Foi construída em 1492 pelo sultão Selim I, mas sofreu graves consequências com o terremoto de 1963, que deixou marcas na estrutura do edifício até aos nossos dias. Infelizmente não conseguimos visitar o seu interior, mas só pelas vistas que oferece e pela paz que a rodeia (com um cemitério atrás), já vale a pena.

Mesquita Mustafa Pasha, Skopje

E agora sim. Chegamos à Fortaleza de Skopje, também chamada de Fortaleza de Kale. É um ponto de observação privilegiado, já que se encontra no ponto mais alto da cidade e permite observar praticamente todos os seus edifícios principais, assim como o Rio Vardar. É outro dos símbolos de Skopje e também está representada no seu escudo de armas e na bandeira da capital macedónia.

Fortaleza de Skopje

Depois de observar detalhadamente a cidade desde a sua fortaleza, e ficar com uma ideia mais clara de como está organizada, voltamos a percorrer as ruas estreitas do Velho Bazar para regressar quase ao mesmo ponto onde começámos este itinerário.

Mas agora vamos dar um passeio pelas margens do rio Vardar e descobrir todas as suas pontes e imponentes edifícios de estilo neoclássico, com a banda sonora proveniente da Ópera de Skopje.

passeio pelas margens do rio Vardar

São várias as pontes que unem as duas margens do rio Vardar, entre as quais se encontram a já referida Ponte de Pedra, a Ponte da Liberdade ou a Ponte do Olho, por exemplo. Mas a que nos pareceu mais curiosa foi a Ponte da Arte (Art Bridge), já que concentra em escassos metros grande parte da história da arte desta cidade, com 29 estátuas de alguns dos mais importantes músicos e artistas desta capital balcânica.

Ponte da Arte (Art Bridge), Skopje

Como dizíamos antes, aqui mesmo ao lado está também a Ópera e Ballet da Macedónia. Um espaço contemporâneo e de estilo moderno, que contrasta com os edifícios históricos e de corte clássico que o rodeiam.

Ópera e Ballet da Macedónia

Um dos edifícios mais representativos desta majestosidade arquitetónica de Skopje é o que acolhe o Museu Arqueológico de Skopje ou Museu da Luta da Macedónia pela Soberania e a Independência, inaugurado em 2011.

Sem dúvida, um lugar de visita obrigatória para todos os que queiram saber um pouco mais sobre a história convulsa do país nas últimas décadas e sobre um conflito que ainda hoje permanece latente com as vizinhas Grécia e Bulgária (que se negam a reconhecer a República da Macedónia como país independente).

Museu da Luta da Macedónia pela Soberania e a Independência

Desde este ponto dirigimos-nos a outro símbolo do orgulho nacional. Vamos até à Porta da Macedónia, que é uma espécie de Arco do Triunfo com 21 metros de altura, inaugurado em 2012 em homenagem aos 20 anos de independência do país.

Porta da Macedónia

A poucos metros encontramos também a Assembleia da República da Macedónia, num edifício de aspecto bastante mais austero. Construído em 1938, sempre funcionou como sede parlamentar e foi testemunho de diversas transições de governo ao longo das últimas décadas.

Assembleia da República da Macedónia

E basta atravessar a avenida que passa em frente à Assembleia para ter a oportunidade de observar um dos monumentos mais emotivos da cidade, dedicado aos Heróis Caídos da Macedónia, durante a guerra travada entre as forças armadas nacionais contra o Exército Nacional de Libertaçao Albanês, que durou quase um ano (de janeiro a novembro de 2011).

Heróis Caídos da Macedónia

E eis que chegamos à casa daquela que é provavelmente uma das personagens mais queridas da Macedónia e uma das pessoas deste país com maior reconhecimento internacional (apesar de ter recebido várias críticas numa fase posterior da sua vida).

Falamos da Madre Teresa de Calcutá, que aqui nasceu com o nome de “Anjezë Gonxhe Bojaxhiu” no dia 26 de Agosto de 1910. A Casa-Museu dedicada à vida da religiosa é um dos museus mais visitados do país (a entrada é gratuita). e, ironicamente, está situada numa das ruas mais comerciais de Skopje (A Rua Macedonia).

Casa-Museu da Madre Teresa de Calcutá, Skopje

Basta dar dois passos para encontrar uma das impressionantes igrejas ortodoxas de tetos dourados da cidade, que também contrasta com os valores de simplicidade e desapego material defendidos pela religiosa, ao longo das suas missões por esse mundo fora. Mas não deixa de ser um indício da tolerância religiosa que reina nesta cidade dos Balcãs.

igreja ortodoxa skopje

Antes que escureça, ainda temos que subir o teleférico até à Milennium Cross, uma cruz monumental com 66 metros de altura. Desde aqui é possível desfrutar de uma vista incrível sobre a cidade e tirar as melhores fotografias panorâmicas de toda a viagem (se o clima ajudar).

Além disso, é um lugar muito agradável para caminhar e tomar um chá quente no refúgio de montanha localizado no ponto mais alto da montanha Vodno, enquanto observas as fotografias na parede, com as conquistas dos melhores alpinistas nacionais.

Milennium Cross, Skopje

Uma experiência mais que recomendável principalmente durante o inverno, já que te permitirá desfrutar de um cenário mágico como este:

Millenium-Cross Skopje

Já começa a escurecer. Terminamos a tarde junto ao edifício do Governo da República da Macedónia. E depois de toda a imponência que observámos um pouco por toda a cidade, não podíamos esperar menos da sede do poder executivo macedónio. Também pintado de branco (o tom predominante na maioria dos edifícios governamentais em Skopje) e com detalhes dourados, está rodeado de grandes colunas que nos recordam que a Grécia está aí mesmo ao lado.

Um verdadeiro símbolo de ostentação e orgulho nacional, que contrasta com a simplicidade das zonas mais degradadas da cidade, bem mais perto do que podemos pensar. Vale a pena passar por aí, mas dá que pensar tendo em conta que este continua a ser um dos países mais pobres da Europa.

edifício do Governo da República da Macedónia

Para concluir estas (quase) 24 horas por Skopje, recomendamos um passeio noturno pela cidade, principalmente pelas margens do rio Vardar. Everás que com a chegada da noite, esta zona adquire um brilho especial…

Skopje de noite

Terminámos esta viagem com a sensação de que, apesar das aparências, falta muito por fazer na Macedónia. Mas a capital é um reflexo da autoestima nacional, do orgulho de uma nação de lutadores, que tratam de levantar cabeça e seguir adiante, perante tamanhas adversidades histórias, políticas e naturais.

Estaria bem voltar daqui a alguns anos para ver como estão as coisas. Até porque o turismo começa a florescer na cidade (graças às companhias aéreas low cost) e a economia vai dando sinais débeis de melhoria. Já sobre a situação política do país e as suas tentativas frustradas de adesão à União Europeia, preferimos não fazer comentários. Mas uma coisa é certa: fomos muito bem recebidos em Skopje e em Ohrid e os macedónios merecem um futuro melhor.

1

 likes / 0 comentários
Partilhar este post:

Comentar este artigo


Clica no formulário para ver mais

Arquivos

> <
Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec